sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Mulheres que amam demais

Gladis Costa


Nome de livro, nome de grupo de auto-ajuda, quando a gente vê uma passagem como esta "Mulheres que amam demais" toda mulher sente lá no fundo um aperto, uma dorzinha, uma lembrança atual ou passada, mas dolorida. Porque mulheres que amam demais é tão redundante quanto corintiano fanático, subir pra cima ou descer pra baixo... atire o primeiro balde de lágrimas quem nalgum momento não teve a sensação de ter amado demais e quando a gente fala demais, pode significar tudo, que amou errado, que amou muito, que amou além da conta, que amou a pessoa errada.

Embora tantos poetas e seresteiros coloquem o amor relacionado com coisas legais como paixão, tesão, felicidade, frio na barriga, coração pilhado e outras coisas, para um grande número de mulheres, também lembra sofrimento, dor, ingratidão, frieza, desrespeito, obsessão lágrimas e frustração, muita frustração. Uma constatação dolorosa de tempo perdido.

Se por um lado mulheres que amam demais é pleonasmo, vamos então partir para a generalização total: ouso dizer que os homens são frios. Não como nós somos frias, porque nós não somos frias nunca, podemos 'fingir" que somos frias, "estarmos" frias por algum motivo, mas nunca seremos frias. Seremos sempre sanguíneas, emocionais, apaixonadas, quentes, entregando incondicionalmente nosso corpo, mente e alma para o objeto de nosso amor.

E a partir deste momento, nossa vida vai girar em torno deste objeto. Tornamo-nos um rio que navega sinuosamente por um caminho pré-trilhado, pré-determinado por este sufocante amor, se ele quiser que sigamos à esquerda lá iremos nós, se quiser que paremos um pouco - aguardando algo, um sinal, uma dica, uma instrução, lá ficaremos, quietinhas, como cães alertas aguardando a volta do dono. De prontidão. A família, os amigos, os hobbies, o trabalho, vão para a 3a. divisão. O espaço é prioridade deste homem. Ele é o senhor dos anéis. A ele caberá decidir quando e por quanto tempo nossa alegria durará. Por quanto tempo estaremos definitivamente noutro planeta, vendo estrelinhas, passarinhos e o mundo através de uma lente cor de rosa.

A este homem, para o qual dedicaremos bilhetes, mensagens, presentes e um sorriso permanente no rosto, guardaremos o melhor de nossas atitudes. A vida só fará sentido quando ele estiver por perto, nas redondezas já basta, porque sabemos que em poucos minutos ele estará ali, não o coração, a mente, a alma, o espírito ou qualquer outra coisa não tangível, mas seu corpo, seu braço, suas pernas e braços, e nós, do alto de nosso otimismo ou ingenuidade acharemos que tudo aquilo que estamos vendo é só o resultado do grande afeto que ele tem por nós, apenas a demonstração genuína de algo que ele sente lá dentro, por nós, a concretização de seu carinho, de sua paixão, que de outra forma, ele não saberia como manifestar.

Porque " homem não sabe escrever" , "não sabe mostrar o quanto gosta", "não sabe demonstrar os sentimentos". E por estas e outras, vamos nós fazendo os seus deveres. Colocando palavras em sua boca, terminando suas frases, completando as lacunas que preguiçosamente deixam de preencher. E daí quando finalmente fizemos toda a sua lição de casa, completando com nosso rico trabalho o bordado que representa a nossa vida, formamos uma imagem que afinal de contas, só existe em nossa cabeça. E é neste hora que eles dizem: De onde você tirou tudo isto? E dai você responde: "Mas eu não tirei, só coloquei. Coloquei minha visão do mundo, minha visão de nós dois, minha visão da nossa relação". E pela frieza ou espanto estampados em seu rosto, você sabe que nunca, em nenhum momento foram realmente um casal, apenas uma dupla, dois amigos, que compartilharam alguns poucos e preciosos momentos juntos, nada mais. Para você, foi prioridade. Para ele, uma opção.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Blog de Alice

A blogosfera acaba de ganhar um novo blog. Trata-se do VersoReverso, criado pela Alice Rossini, colaboradora do Plenidade.
Vale a pena visitar. É só clicar no link ao lado.

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A mulher no metrô

Pedro Ribeiro*

Tomei o ônibus rumo ao trabalho. Saltei próximo da estação da Sé de Metrô, buscando entrar na linha vermelha em direção ao Vale do Anhangabaú. Não fui a pé, afinal era um daqueles dias de chuva, típico da metrópole. Já sentado no trem, abri um livro do Graciliano Ramos e comecei a ler.

Em alguma estação à frente entrou uma mulher humilde, morena, cabelos molhados provavelmente do banho da manhã, meio ondulados e soltos. Braços musculosos e veias das mãos bem a mostra, sugerindo trabalho duro. O rosto, porém, era extremamente delicado. Não percebi qualquer vestígio de maquiagem. Os lábios carnudos, tipicamente brasileiros, revestidos por um baton bege claro, muito discreto. O vestido era simples, com flores estampadas de baixa qualidade. A barriga um pouco maior que o normal para uma pessoa magra. Diria que era um tipo meio barrigudinho, entretanto me atraí por suas curvas.

O casaco, daqueles bem ordinários, descia até próximo da cintura. Não contava com nenhum enfeite. Os pés maltratados com as veias também à mostra. Os calcanhares estavam tampados pela tira da sandália rosa. As unhas dos pés pintadas de vermelho, única vaidade que notei. Uma bolsa de plástico aparentando couro falso estava pendurada pela alça, bem acomodada em seu ombro esquerdo, que, por sua vez, estava à mostra.
Parei de ler Graciliano para observá-la atentamente. Estava apoiada entre a extremidade do banco à minha frente, do lado oposto no vagão, e a beira da porta. Preocupava-se em manter o resto do corpo um pouco distanciado da parede do trem. Devia ter não mais que vinte e sete anos. Bonita mulher, rosto bem desenhado, contudo sem brilho e expressão. Fiquei tentando adivinhar a sua profissão. Arrisquei que fosse uma empregada doméstica, mas pela hora, quase dez da manhã, ou estava atrasada ou tinha outra profissão.
Enfim, fiquei imaginando o suposto segundo emprego. Não conseguia. A sua barriguinha protuberante me tirava a atenção. Vez por outra, pelo balançar do trem, ela mudava a posição dos pés chamando-me a atenção para sua visível inquietação. Estava com pressa. A teoria do atraso voltou-me à cabeça. O metrô estava cheio; logo, tive dificuldades em continuar analisando-a. Talvez isto me tenha feito ser muito chamativo, e ela percebeu o meu interesse.Olhou-me naturalmente. Apertou mais uma vez os lábios e desviou rapidamente o olhar. Outra vez trocou a posição do pé de apoio e passou a mão direita sobre o cabelo. Aproveitou, ainda, para arrumar a alça da bolsa, que teimava em escorregar de seu ombro esquerdo.
Voltei para a leitura do livro. Não consegui. A morena não parava de vir a minha mente. Resolvi voltar a olhá-la. Não a encontrei. Provavelmente descera em alguma estação durante esse meio tempo. Não pude conter certa frustração.Ajeitei-me no banco, curvei um pouco mais a cabeça e voltei ao livro.Desta vez a leitura correu tranqüilamente.
Bom, a moça não perdi, é claro. Está gravada nesta crônica, segundo pareceu sobre minha visão. Porém nunca passará de uma vaga lembrança, que vez outra invade minha mente. Ou será meu coração?

*´Paulistano, estudante, tem 13 anos de talento.
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sábado, 7 de fevereiro de 2009

Maysa, Piaff e eu

Alice Rossini

O que as vidas de Maysa Matarazzo e Edith Piaff tem em comum, e onde as duas histórias que tanto me fascinam e emocionam se identificam?

Artistas talentosíssimas, as duas tiveram, cada uma ao seu modo, motivos tanto para serem equilibradas quanto para possuírem aquelas personalidades irascíveis. Amigos, fiéis e infiéis, dificuldades, decepções, alegrias e tristezas. Quem não as tem? Não pretendo tecer considerações a respeito da biografia das duas, escrevo o pouco que sei e senti, através de quem a fez. A opção pela arte as absolve de qualquer juízo delas que se pretenda fazer.

Piaff teve uma infância conturbada. Órfã de mãe e abandonada pelo pai convocado para a guerra, foi entregue à avó que a criou num prostíbulo. O pouco de amor que teve na infância foi suprido por uma prostituta que afeiçoou-se à futura Cotovia, mas de quem, mais tarde, foi cruelmente afastada. Edith, premida pelo ambiente em que vivia, prostituiu-se. O pai, artista de circo, na crise do pós-guerra viveu, por um período, da beleza da sua voz. Após sua morte, começa a carreira cantando nos cabarés de Paris. Teve várias paixões, mas era inconstante e sequelada pelos sofrimentos da infância. Vicia-se em morfina e era alcoolatra. Estes dois vícios minam sua já precária saúde.

Maysa tinha uma família estruturada, casou-se e descasou-se por amor. Nunca perdeu o respeito e o apoio do marido, seu melhor amigo, com o qual teve um filho que, por mais que as circunstâncias lhes afastassem, mantinham vínculos profundos. Vítima do álcool e apaixonada pela música, teve dificuldades em manter o equilíbrio emocional. Viveu conflitos existenciais intensos, teve muitas paixões, mas um único amor.

Maysa e Piaff, fizeram sucesso no mundo inteiro, quanto mais sofriam mais cantavam e encantavam. Os mesmos que as machucavam, curvavam-se diante de seus talentos.

Poderíamos usar como argumento que ser artista, na época em que viveram, as obrigava a carregar o ônus de enfrentar uma série de preconceitos e, com eles, as próprias culpas por serem diferentes. O estereótipo ao qual se obrigavam a corresponder as levava ao vício, a serem infelizes e viverem à margem dos padrões considerados "normais". O preço que pagaram foi alto demais, corroeu suas estruturas emocionais e físicas. Desistir? Nunca! Sucumbir às pressões apenas apressaria sua destruição.

Mas, e dai? As vidas destas mulheres já fazem parte do passado, e tanto podem inspirar admiração quanto piedade. A beleza de sua arte, o mundo reconhecerá até o final dos tempos. Suas vozes as eternizaram, a música as redimiu.

E eu? Onde, humildemente, insiro-me neste contexto feito de arte, tragédia e sofrimento? Que aspectos das vidas dessas mulheres me fascinam e me mobilizam tanto? A resposta poderia, facilmente, ser a força e a coragem de se assumirem como eram. Ninguém ousava sufocá-las!

Será a resposta tão simples e óbvia assim? Não seriam as tragédias, os tumultos pessoais, as inseguranças, as carências, os sentimentos de inadequação, as insatisfações que tanto me impressionam e me fascinam? Estes sentimentos, afinal, compõem o Mito, e o mito absorve, impressiona e pressiona.

Uma certeza, eu tenho. A trilha musical que acompanha suas vidas, lhe confere uma dramaticidade que vão ao encontro de uma parte de mim que é vazia e órfã de emoções, onde existe um vácuo de definições, convicções, força e beleza, que parecem tornar minha vida sem sentido e às vezes, experimentando a incômoda sensação que o meu mundo cairá a qualquer momento.

Invejo-as! Apesar das vidas difíceis e infelizes que levaram, invejo-as! As duas viveram pouco, se usarmos a métrica convencional para medir o tempo. Mas foram tão intensas! Tanto no cantar, quanto no chorar, quanto no sorrir, quanto no amar, que a sensação que tenho, é que pairam acima das concepções normais de existir e ser. Encontraram o segredo de transcender a normalidade medíocre.

Quanto a mim, instalada no conforto e no desconforto das minhas escolhas, poderia sair por aí, gritando insana, mas lúcida: "Non, je ne renegrette rien"!!!

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sábado, 31 de janeiro de 2009

Marketing ou vaidade?

Anda circulando na internet uma mensagem com duas fotos da ministra Dilma, antes e depois da cirurgia plástica, e o seguinte texto:

O QUE A SIGLA PAC REALMENTE SIGNIFICA?
Peeling Aplicado na Coroa
Programa de Auto-limpeza da Cara
Privilegiar Aparência da Candidata
Programa de Aceleração da Cirurgia
Plástica de Adequação da "Companheira"
Programa de Alavancagem da Candidata
Perfil Aceitável da "Companheira"
Pregas Arregaçadas e Costuradas
Pitanguy Adiante Corrige

Que gente malvada! Será que a cirurgia foi só uma estratégia de marketing? E a vaidade feminina, não conta?

Pode ser. Mas, não posso deixar de lembrar que vaidade não fazia parte dos hábitos da maioria das militantes de esquerda, durante a ditadura. Especialmente as que tinham um nível tão alto de envolvimento como o da agora ministra.

Na verdade, assim que se entrava no movimento estudantil – o jardim de infância da militância -, qualquer demonstração de vaidade era prontamente combatida como “desvio ideológico”. Lembro como se fosse hoje o primeiro contato, em 1969, com as "lideranças” do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. A caloura de minissaia, salto alto e cabelo bem tratado sendo recebida com olhares de espanto e reprovação pelas futuras companheiras, de cabelos desarrumados, rostos pálidos, roupas muito simples e sem graça, algumas tão exageradamente despojadas que calçavam tenebrosas sandálias franciscanas.

Acho que a mudança de layout da ministra tem as duas coisas, trabalho de imagem e vontade pessoal. E ela não é a única a dar um trato no visual; as “jubas” domadas da Luciana Genro e da Jandira Feghali são dois exemplos recentes.

E, a favor da ministra, pode-se dizer que sua plástica foi bem sucedida, pois discreta. O que já não se pode dizer algumas “celebridades” - e isso inclui as da política -, submetidas a tantas intervenções que ficaram com uma pele muito esticada, lábios excessivamente volumosos, um rosto sem expressão e ostensivamente artificial que denuncia a “idade” que tanto querem esconder.

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domingo, 25 de janeiro de 2009

Inveja

Mais uma amiga anuncia que breve será avó. Várias já são.
Na boa, mas rola uma inveja...

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segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O castigo de Dedina

Alice Rossini

Para minha surpresa, a novela “A Favorita” perdeu a chance de reconhecer como humano e passível de uma análise mais atual, a traição. No caso, a feminina.

Dedina, personagem da bela Helena Ranaldi, vivia um casamento equilibrado e feliz, sob o ponto de vista do marido, diga-se de passagem. Prefeito, e político idealista, comprometido com a causas sociais, deixava-se absorver, exemplarmente, pelos problemas da sua cidade, desconhecendo, por falta de tempo e ranço masculino, os anseios e desejos de sua bela e jovem mulher.

Ela, companheira e dedicada, não esquecia seus deveres de primeira dama. Mas convivia, perto demais, com o melhor amigo de seu marido, vivido pelo não menos charmoso e sensual Malvino Salvador. A proximidade dos dois, a carência de um e a sensualidade machista do outro, acabaram por criar um clima erótico, apimentado pela impossibilidade, uma vez que Salvador era o melhor amigo do Prefeito.

Nós mulheres, por termos mais consciência das nossas carências, facilmente não só as identificamos, como também escolhemos quem pode suprí-las. Sentindo a correspondência do amigo que, covardemente, não só não se afastava mas também não se decidia, Dedina resolveu, como qualquer ser humano o faria, partir para o "ataque".

"Tudo que começa errado termina errado", ja dizia minha avó. Até porque, a força que aproximava aqueles dois era a sexual, mas motivada, como disse acima, pela impossibilidade e pela atração do ser humano pela transgressão. Ja disse Marilena Chauí, "não existiria erotismo se tudo fosse permitido".

Dedina é descoberta, e o roteirista coloca o marido traido como uma vitima indefesa e isenta de qualquer culpa. Nem que fosse pela condução equivocada e egoista do seu casamento.

Flagrada no "pecado" de buscar amor e carinho em braços alheios, nada resta a Dedina, cheia de culpa, senão rastejar em busca do perdão. Detalhe, ela ama o marido e, pelo outro, sente forte atração sexual, que nós mulheres teimamos em misturar com conteudos amorosos, para justificar nossos "deslizes". Aos poucos, reconquista o marido que a ama, mas reincide! Reincide e é colocada para fora de casa, tal qual as mulçulmanas do outro lado do mundo, costumes que nós, civilizados, tanto criticamos. So faltaram o chicote e o apedrejamento

Estes requintes de perversidade foram, metaforicamente, usados pelo amante que a rejeitou, vendo nela a origem de toda sua infelicidade, a perda do amigo e da imagem de bom moço que gozava na cidade.

Desestruturada pelas humilhações e colocada mais uma vez para fora de um lar que a abrigasse, começa como uma louca a perambular pelas ruas da pequena cidade. Povoada por pessoas preconceituosas, mas também cheia de "boas almas", "mulheres bravas e solidárias" vividas pela família do velho comunista Copolla, indiferentes, vem a "traidora" passar fome, dormir em bancos de jardim e ser vítima de estupradores.

Dedina adoece e morre no leito do marido. O ex-amante, igualmente traidor, ainda chega a tempo de ouvir seu pedido de perdão pelos percalços por ela provocados. Como prêmio, refaz sua vida com outra mulher. Na ficção como na vida...

Tratada e castigada como vilã, a Globo, tão complacente com delitos mais nocivos socialmente, perdoa e modifica,de ultima hora, carateres e personalidades, leva o telespectador a lançar sobre fatos do cotidiano um olhar mais realista e compassivo, induzindo-os, muitas vezes, a juízos mais tolerantes, com a Dedina usou de um maniqueísmo absurdo! Nem se deu ao trabalho de tratar o destino da personagem sob o "espírito" do atual Código Civil Brasileiro que, evoluiu para discriminalizar o adultério.

Com Dedina, usou o rigor e o atraso do Alcorão!

... e a salvação de Catarina

Mais uma vez, a novela “A Favorita” surpreendeu. Desta vez, através da personagem de Catarina. Uma dona de casa submissa, cujo tamanho do universo fez com que se submetesse, durante anos, a um marido violento, perverso, machista, que não amava, sequer, os próprios filhos. Como sempre, Lilia Cabral subtrai da interpretação da personagem, qualquer clichê capaz de inspirar no telespectador mais indignação pelo marido que piedade pela mulher, tamanha a grandeza da sua alma e a beleza e a dignidade com que conduz a própria infelicidade.

Sofre, mas não se deixa contaminar por sentimentos mesquinhos. Corajosamente, protege os filhos, libertando-os do estigma de uma paternidade doentia que os torne reféns de uma infância infeliz. Trauma só os necessários. Nunca deixam de apoiar a mãe.

No decorrer da novela, Catarina descobre um homem, simples verdureiro, que através de pretensos bilhetes, na verdade escritos, piedosamente, pelo próprio pai, devolve-lhe, aos poucos, a auto-estima já fragilizada. Paralelamente, começa a amizade com uma mulher, ja dona de um restaurante, que lhe oferece emprego, aproveitando seu, e até o momento, único talento, cozinhar. Tornam-se amigas e sócias e o empreendimento faz sucesso pela qualidade e pelo atendimento.

Sentindo-se útil, a mulher começa a desabrochar. Aceita a corte do verdureiro Wanderley e, durante o rápido namoro, vão para a cama. Descobre o corpo, o prazer, a sexualidade, a normalidade. Abrem-se então, através de descobertas tão instintivas, as infinitas possibilidades que a vida pode oferecer para quem está preparado para experimentá-las. Uma Catarina livre e dona do próprio destino, desmancha o casamento com seu salvador, justamente por ter sido ele quem lhe abriu as grades do cárcere existencial em que sobrevivia.

Foi uma cena tocante, amorosa e respeitosa o final do romance do verdureiro com a ex-dona de casa. Ele também foi tocado pela grandeza daquela mulher, cuja saúde da alma, confessa, teve o poder de torná-lo um ser humano melhor.

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domingo, 11 de janeiro de 2009

O brilho do desejo

Alice Rossini

Fim de Ano. Decidir como passar de um ano pra outro não chega a ser um problema mas ocupa algumas horas de muitas elocubrações, embora, a maioria de nós tenha consciência de que tudo não passa de mera convenção. Está tão fortemente impregnada no nosso inconsciente, que fazemos promessas, apelamos para divindades, mesmo os céticos e, todos os anos, queiramos ou não, cumprimos os mesmos rituais. Tudo continua acontecendo, de bom ou ruim, perdas e ganhos, fatos sucedendo fatos, todos indiferentes ao calendário.
Este ano, mais uma vez, meu marido e eu fomos para um lugar estratégico, onde pudéssemos, confortavelmente, apreciar um dos shows pirotécnicos que acontecem em todos os cantos e recantos do planeta. Há algum tempo, estes shows acontecem, tanto para encantar, quanto para matar: o homem não dá trégua.
Felizmente estávamos na "faixa" em que a pirotecnia estava a serviço do encanto, na Baía de Todos os Santos. Milhares de embarcações, do barquinho a vela às escunas exclusivas ou àquelas compartilhadas por muitas pessoas, todas muito animadas, cantando e dançando, até lanchas e veleiros, elegantes e discretos, tanto no número de convivas, quanto na forma de externar a euforia de adquirir o "direito" viver mais um ano, brigavam por um lugar sob as estrelas.
Embora o mar seja imenso, o ritual requer algumas precauções e a área confortável e segura para visibilidade restringe-se. Ficam todos, barcos, escunas, lanchas e veleiros, muito próximos. Tão próximos que olhos atentos podem perceber expressões de rostos que, embora anônimos, guardam entre si a semelhança que só a esperança empresta.
Embora atenta à beleza da explosão em fogo de mil cores e formas, fico imaginando se, naquele momento, pudessem se materializar todos os sentimentos que fugiam dos pensamentos e, por instantes, aninhavam-se nos brilhos de milhares de olhos voltados para o céu! Ah! Quantos desejos antigos e nunca satisfeitos, quantas saudades nunca aplacadas, quantos fantasias de poder estar vendo tudo em companhia de outra pessoa ou quanta vontade de estar com a mesma pessoa vendo outras coisas. Quantas lágrimas de esperança, gratidão e saudade. Quantos desejos impossíveis, e por isso mesmo, tão carinhosamente regados pelo tempo; quantas recordações amargas que os fogos não podem queimar e quantas lembranças felizes que eles também não podem reacender!
Enquanto o encantamento de formas e cores enfeita o céu que, democraticamente, cobre e acolhe a todos, continua em cada olhar o brilho que o ser humano, enquanto vivo estiver, jamais perderá - o brilho do desejo! Dos possíveis aos impossíveis, dos que podem ser gritados aos que devem ser escondidos, dos que abraçam a humanidade inteira aos que só acariciam parte do nosso corpo. Não importa de qual natureza é forjado. É importante que exista, pois é por ele que vivemos.
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Um carioca na ex-Iugoslávia

"O Kosovo independente é tão ridículo quanto uma Baixada Fluminense independente.

O nível de desenvolvimento socioeconômico é o mesmo. Pristina é uma cidade curiosa. Lembraria Nova Iguaçu, por exemplo, no tipo de prédios e na forma de urbanização, exceto pelo fato de a arquitetura ser adaptada para lugares com inverno rigoroso. As casas e edifícios têm chaminés e telhados inclinados, sempre, para a neve não acumular tanto. Fora isso, é uma cidade de prédios baixos, ruas largas e pouco decoradas, muito concreto, comércio popular (camelôs e lojas de bugingangas) e vários carros velhos."

O trecho acima é do blog Yugoboy, criado pelo jornalista carioca Pedro Aguiar, que está em viagem de estudos na região da antiga Iugoslávia e arredores. Vale a pensa clicar no link ao lado e acompanhar o que ele define como "um exercício de arquelogia do recente, de etnografia pop e também de jornalismo... num um país que deixou de existir aos poucos entre 1991 e 2008, mas que ainda tem muitas relíquias prontas para serem escavadas."
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segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Meu filho vai casar!

Alice Rossini

Meu filho vai casar! Simples assim, vai casar.

Ainda lembro os dias em que minha cabeça enviesada de mãe de primeira viagem, na companhia de minha mãe, também avó de primeira viagem, procurávamos, cheias de apreensões e critérios psicopedagógicos, uma creche que tivesse a amor de casa de avó, disciplina de colégio e segurança de casa de mãe. Um lugar que pudesse acolher meu filho, com apenas de 2 anos de idade.

Achamos uma, Montessoriana, que prestou-nos o relevante serviço de mostrar que o único lugar onde um ser humano não corre riscos é no ventre materno. Tudo bem, meu filho foi para uma escola com nome de flor e cara de sol - Girassol - e lá permaneceu até a quinta série, quando eu, mais chorosa que ele, o transferi para outra escola que tinha nome de missionário - Anchieta. Não faz muito tempo, não conseguia conter minhas lágrimas de saudade, das escolas, do que significaram na infância e na adolescência do meu filho e da época em que, ingenuamente, achava que poderia protegê-lo da vida.

Daí para a Politécnica de Engenharia, foi um pulo. Um vestibular, a certeza da aprovação e em 5 anos, levitávamos, ele e eu, pelo corredor do Salão Iemanjá, no Centro de Convenções, onde, simbolicamente, graduei-o engenheiro.

Tudo fluiu de forma aparentemente tão simples e tão rápida, que logo estaria vendo-o, cheio de malas, sumindo no corredor do aeroporto, indo morar em São Paulo, onde, durante 5 anos, viveu longe de mim, embora continuasse meu filho e minha casa, ainda sua casa.

Agora, meu filho vai casar! Simples assim? Nem tanto! Aliadas às minhas expectativas, minhas entranhas avisam que, mais uma vez, se apartará de mim e eu não poderei mais percorrer abrigos onde a segurança e o amor tenham a mesma intensidade das que frequentou durante toda sua vida. Agora, é ele quem percorre seus caminhos, à procura do melhor lugar que o acolha.

Para as que ainda não sabem, o corte deste cordão, ainda que nos traga felicidade e a certeza que fizemos "quase" tudo certo, é o mais difícil, porque definitivo. Não mais ouviremos portas se abrirem nas madrugadas, não mais vozes clamando ou reclamando - "mãe! quero água!", "compra o pão!", "manda passar aquela camisa!", "cadê meu tênis?", "essa comida está horrivel!", "você nunca mais fez aquele bolo de milho!" - não estaremos por perto quando o castigo ou a tarefa forem maiores que sua capacidade de suportá-los, quando a febre chegar, quando a chuva cair, quando o sol se abrir, quando o céu estiver cheio de estrelas ou todas sumirem e as nuvens o nublarem. Quando o dia amanhecer chuvoso, não podemos obrigá-los a levarem o agasalho e, sob o sol causticante, não espalharemos filtro solar sobre seus rostos e ombros, agora expostos ao sol, à chuva, à vida.

Meu filho vai casar. Nada simples, embora muito natural. Outra mulher dividirá com ele a própria vida! Que se façam felizes, que se aturem, se cuidem, se amparem e tenham, um pelo outro, muita compaixão. Resta a esperança que a distância e a vida que se imporá de forma inexorável, misture nossas lembranças e, nesta mistura, nossos corações se aproximem, mãe e filho, criador e criatura, sob a lei do eterno retorno, encontrem um no outro, respostas pra suas perguntas, redenção para seus pecados, e mais motivos para continuar a vida.

*Alice Rossini é aposentada, nada além disso
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sábado, 27 de dezembro de 2008

Dois amigos, dois Natais

Há pouco mais de duas semanas, um amigo perdeu a esposa, sua companheira de muitos anos. Foi de repente, um golpe inesperado. Fiquei triste com sua dor.

Anteontem, dia 25, uma amiga ganhou uma netinha, a primeira. Fiquei feliz com a sua alegria.
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Os pássaros e eu

Acabo de ler no portal G1 que uma família de Ribeirão Preto, interior de SP, vai passar alguns dias sem usar o carro para não espantar um beija-flor que fez o ninho debaixo do automóvel. É o tipo de notícia que chama a minha atenção, primeiro porque adoro bicho. E, depois, porque passo, pela segunda vez, por situação parecida.

A primeira foi há alguns anos; e, confesso, não foi tão prosaica. É que, em vez de um beija-flor, uma pomba aproveitou um fim de semana para colocar seus ovinhos em uma das plantas da janela do meu escritório. Quando cheguei, na segunda-feira, e fui levantar a veneziana, lá estava ela instalada no vaso, chocando os ovos. Levamos (as duas) um susto daqueles: eu, com o inusitado da situação, e ela, com aquele ser ameaçador. Mas logo compreendi que não me restava outra opção senão me conformar com a nova vizinha e evitar chegar à janela – ou fazê-lo com muito cuidado, para não assustá-la. E também nem pensar em levantar o vidro para regar as plantas. A sorte é que cacto agüenta muito tempo sem água.

Bem, um dia os pombos nasceram e eu, ao contrário do que imaginava, não fiquei nem um pouco enternecida. O problema não foi a feiúra dos dois bichinhos - pelados, com pescoço enrugado – mas o fato de empestearem o ninho/vaso com seus excrementos. Minha paciência já estava no limite depois de mais de um mês sem poder abrir a janela e limpar a imundície do peitoril, que só fazia aumentar.

À medida que cresciam e ganhavam penas, a aparência dos dois melhorava. Mas eu estava louca para que eles tomassem coragem e ganhassem o mundo. Levou um bom tempo até que o primeiro se animasse a voar. O outro, medroso, esperou mais uma semana para deixar o ninho. Comemorei o feito abrindo a janela e providenciando a limpeza e desinfecção do peitoril.

Atualmente, acompanho através da janela do meu quarto o surgimento de uma nova família de bem-te-vis. Desta vez, os ovos foram depositados em um ninho construído na jardineira do andar de cima. A fêmea fica no ninho, enquanto o macho vigia, empoleirado no alto de uma das inúmeras árvores da rua. O bichinho é atento, e bravo. Quando chego à janela, ele começa uma série de vôos ameaçadores em minha direção, piando alto (bem-te-vi, bem-te-vi!).

No início, eu me assustei, com medo de que ele se chocasse contra o vidro. Mas quando vi que ele passava a uma distância segura, relaxei e passei a observá-lo. Todos os dias, assim que me vê, ele dá um, dois, três vôos, cada um vindo de uma direção. Depois, sossega em um galho e permite que eu estique o pescoço para olhar a movimentação da fêmea e dos filhotes no ninho, cuja abertura, para minha sorte, está voltada para fora.

O que é curtição para mim, é frustração para os meus gatos, que também se aboletam na janela. Dá dó vê-los ali, atentos, de bigodes e orelhas em pé, emitindo aqueles miados curtos, típicos dos momentos de caça. Que, no que depender de mim, nunca acontecerá.
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008

No Brasil, é proibido envelhecer

Sérgio Gomes*

Acabo de completar 60 anos. Entrei naquela faixa etária que estão chamando eufemisticamente de “a melhor idade”.

Pois sim, como dizia a minha avó.

- Idade é pelanca só!

Também ando desconfiado dessa conversa de “melhor idade”, pois ao virar sexagenário ganhei de cara um belo presente dado pelo meu plano de saúde, que aplicou no meu seguro um formidável aumento de 140%.

Ao ver o tamanho da fatura, liguei para o plano, achando que eles haviam cobrado errado.

Nada. A moça do outro lado da linha logo me sapecou um gerúndio fulminante:

- É aumento automático para todos que vão estar fazendo 60 anos como o senhor.

Entendi, pessoas idosas correm mais riscos de contraírem doenças, daí o plano de seguro cobrar mais caro, para se prevenir.

Mas, precisava aumentar tanto? - pergunto eu, ao vento, por que no Brasil não se tem mesmo, a quem de direito, perguntar.

Acho que nada, rigorosamente nada, em qualquer parte do mundo, pode subir de uma hora para outra uma exorbitância dessas.

Não parece aumento, mas uma penalidade – é como se o sujeito idoso, ao completar 60 anos, tivesse cometido um crime, sendo logo forçado a pagar uma fiança pela teimosia existencial.

Fico imaginando o burocrata do plano de saúde constatando a minha promoção à terceira idade, dizendo lá para os seus botões:

- Ah, fez 60, não foi? Sujeito atrevido! Hummm!... Agora vai ver o que é bom para a tosse!

Não tossi não, mas realmente engasguei com o tamanho da fatura.

A segunda reação que tive foi a de ligar para o meu advogado, pensando em entrar na justiça contra o abusivo reajuste.

Levei balde de água fria. De acordo com ele, não adianta chiar, por que se trata de lei, está no contrato assinado, e todos que reclamam perdem.

Desconsolado, falei para a minha mulher:

- Tenho de reconhecer, você é que está certa!

- Por quê? – perguntou-me ela, sem entender.

- Há mais de duas décadas você não sai dos 39 anos! Continue assim.

- Ué, por quê?

- Você não imagina o quanto nós vamos economizar!

* Sérgio Gomes é jornalista.

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segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Ex-JB

Sílvia Helena*

30 de agosto, almoço na Fiorentina com a galera do Jornal do Brasil de 30 anos atrás. Ao rever as pessoas, revivi com emoção um tempo passado, quando a gente, nós todos que estávamos ali, achávamos o jornalismo uma coisa muito legal de se fazer. Um meio honrado e honroso de se ganhar a vida. Olhando para trás, foi um privilégio ter participado daquele grupo, daquela redação - que hoje me parece tão extraordinária.

Por que? Não vejo mais no Brasil - talvez alguma exceção? - um espírito profissional como o que tínhamos:

- lealdade, que se chamava de "patota", "panela", e que se resumia a uma coisa que eu acho cada vez mais bonita e que simplificadamente se pode definir como "o amigo do meu amigo é meu amigo; o inimigo do meu amigo é meu inimigo";

- disposição para procurar uma boa história.;

- orgulho de um bom texto;

- compromisso com a defesa de idéias.

Isso, que não é pouco, parecia apenas normal.

Acabou. Não interessa procurar as razões: seria um exercício em vão. Chega de saudade.


* Sílvia Helena é jornalista e escritora.

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