Vera Dantas
Uma nota publicada, esta semana, na coluna Boa Gente, do Globo, descrevendo o sorteio de um vibrador na pré-estréia do filme “Mulheres, sexo, verdades e mentiras”, me fez voltar no tempo. Depois, é claro, de dar boas risadas com a desventura do sorteado – o pobre coitado foi vítima de algumas piadinhas tipo “Experimenta!”, já que o acessório é (ou tem sido) voltado para o público feminino. Mas, voltando ao momento “recordar é viver”, pensei que uma cena como essa seria inimaginável na minha infância e adolescência. Da mesma forma que não passava pela cabeça de ninguém a possibilidade de vir a ter um celular.
Até meados da década de 60, sexo era um grande tabu. Para as mulheres, pelo menos. Crescemos convictas de que sexo era algo sujo, feio. A mulher “direita” era recatada e a virgindade deveria ser guardada, como um tesouro, até o casamento. Nesse dia, a noiva entrava na igreja orgulhosa em seu vestido branco, símbolo de sua pureza. A convenção era tão rígida, e respeitada, que as “não-puras” (as viúvas ou aquelas mais afoitas que tiveram o azar de engravidar) usavam um rosinha, um creme, um amarelinho. Branco, nunca! Ah, sem esquecer que, na época, não tinha divórcio e as desquitadas não podiam casar. Era assim e pronto. Ninguém questionava.
A chegada da pílula anticoncepcional abriu caminho para a liberação sexual. As mais antenadas, politizadas ou inquietas foram as primeiras a aproveitar a nova vida. Mas a grande maioria das meninas continuou com a sua vidinha recatada – embora nem tanto - ainda por um bom tempo.
Um detalhe interessante é que nos meios mais intelectualizados começou a funcionar um preconceito às avessas: quem era virgem era out. A marcação era forte, o que levava algumas meninas, que ainda eram virgens por pura falta de oportunidade, a tentar resolver o “problema” com algum colega. Lembro que, em 1969, ao entrar na universidade, fui alvo de uma aposta feita por algumas colegas do curso de ciências sociais. Como eu ainda fazia o estilo patricinha (que na época tinha outro nome), em contraste com o modelo intelectualizado e/ou revolucionário de uma boa parte dos alunos, é claro que a maioria apostou na minha pureza.
Hoje, o sexo está em revistas, filmes, nas sex shops, nos cursos de striptease, nos seriados e programas de TV que promovem astros de filmes pornôs e garotas de programa, e por ai vai.
Bem, isso é ruim? Sim e não. Os aspectos negativos são muitos, a começar pela exacerbação do tema, que não poupa nem o público infantil. Mas, para quem conhece de perto o outro lado da moeda e, como eu, estudou em colégio de freiras, essa banalização chega a ser divertida.
Fico pensando o que poderia ter acontecido se, quando adolescentes, tivéssemos mais informação e menos proibição e culpa. Se, em vez de um confessor que considerava nossas perguntas “pensamentos impuros” e prescrevia dezenas de Aves Marias e Padres Nossos para zerar esse débito, pudéssemos satisfazer nossa curiosidade vendo o programa da engraçadíssima Sue Johansen. Uma coisa, pelo menos, é certa: teríamos poupado um bom tempo de terapia

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
De vibradores e penitências
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sábado, 15 de dezembro de 2007
Papo de jovem
Vera Dantas
Convescote numa reunião de aniversário de um quase sessentão. Esparramados no sofá digerindo o ótimo almoço, amigos da mesma faixa de idade botam o papo em dia. Intelectuais, bem informados, falam de política, tecnologia, cultura, só papo alto nível. Mas, sem se que se perceba, o foco da conversa muda, como da água para o vinho. Eis que já estão falando sobre um tema que é cada vez mais presente nas conversas: as dores e achaques que teimam em aparecer ultimamente. A mais veemente, uma “jovem” de 50 anos, diz que já não sabe o que fazer com o ombro. As dores, que começaram devagar, foram aumentando. Fez de um tudo: massagem, acupuntura, fisioterapia, antiinflamatório. O que de real é que sua vida se tornou um inferno. Sente dor o tempo todo, não consegue movimentar direito o braço.
Um papo leva a outro e, na mesma hora, todos têm um palpite ou um problema para relatar: é a pressão, o colesterol, o triglicérides... Até que alguém se toca e avisa: “Ei, gente, que negócio caído é esse de ficar falando de doença? Parece um bando de velhos”. Risadaria geral. Mas funcionou. Todos trataram de mudar de assunto, pois ninguém queria ficar sendo o “velhinho” chato da história. Mas, se não fosse pela “censura”, o papo não teria fim, pois todos tinham um causo a contar, uma queixa – nem que fosse da maldita balança, que só faz andar pra direita.
Claro. Porque depois dos 50, um pouco antes ou depois, elas começam a aparecer. Um dia é na perna, outro dia no pescoço, outro dia nas cadeiras. Dores que vêm e vão. Assim, sem cerimônia. No início ninguém dá muita bola. Mas quando elas se instalam, é hora da preocupação. E da constatação que o corpo está dando mostras de que a idade passa.
Só que nem eu nem nenhum dos meus amigos e colegas de geração achávamos que isso aconteceria conosco. Salvo uns poucos “realistas demais”, pensávamos que seríamos sempre jovens, que não envelheceríamos.
Ainda somos, embora não "tão jovens" como antes. Mas, graças à fantástica evolução da ciência, que vem ampliando significativamente a expectativa de vida, não há nenhuma semelhança entre os cinqüentões, sessentões e até mesmo os setentões de hoje e os de algumas décadas atrás.
E contamos, além das novas técnicas e terapêuticas, com um recurso adicional valioso: a informação. Hoje, temos condição de saber o que fazer para evitarmos ou, quando não é mais possível, lidar com os problemas de saúde. E, principalmente, sem abrir mão da qualidade de vida.

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VERA DANTAS
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