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sexta-feira, 18 de abril de 2008

Papéis invertidos

Há momentos em que a gente se dá conta de que uma importante mudança está acontecendo em nossa vida. Primeiro amor, entrada na universidade, primeiro emprego, casamento, filhos... A partir dali, nada será como antes. O envelhecimento, fragilização e dependência dos nossos pais é um desses momentos. Na verdade, a não ser quando há um acidente ou uma doença grave, ele não ocorre abruptamente. É um processo que acontece aos poucos. E, quando vemos, aquela pessoa que nos criou, cuidou, educou e continuou ajudando quando nos tornamos adultos, vai demandando cada vez mais nossos cuidados. Os papéis se invertem: o(a) filho(a) se torna pai (mãe), e vice-versa.

É uma sensação muito estranha. E difícil. Até porque o outro lado geralmente se recusa a aceitar essa inversão de papéis. Sua vontade e autonomia são bens preciosos, dos quais não se pode abrir mão. Negativa, teimosia e mágoa são as armas que usa para se defender. “Onde já se viu? Eu te criei, e agora você vem me dizer que eu devo fazer isso e aquilo? Eu sei me cuidar”.

Não. Infelizmente, dolorosamente, ele(a) já não sabe – pelo menos com a presteza, segurança e eficiência de antes. Nessa hora, a gente vê que precisa tirar tapetes e outras armadilhas derrapantes da casa, conferir se está tomando os remédios, se bebe água suficiente, se toma sol... e por aí vai. O(a) nosso(a) novo(a) filho passa a demandar cada vez mais atenção e cuidados.

Mas a principal dificuldade não é o trabalho ou o tempo despendido. Afinal, nada mais justo que retribuir um pouco do que nos foi dado. O que pega é pensar que, talvez um dia, a gente também passe por isso. Que nos tornemos filhos dos nossos filhos. Talvez, talvez...


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sábado, 15 de dezembro de 2007

Papo de jovem

Vera Dantas

Convescote numa reunião de aniversário de um quase sessentão. Esparramados no sofá digerindo o ótimo almoço, amigos da mesma faixa de idade botam o papo em dia. Intelectuais, bem informados, falam de política, tecnologia, cultura, só papo alto nível. Mas, sem se que se perceba, o foco da conversa muda, como da água para o vinho. Eis que já estão falando sobre um tema que é cada vez mais presente nas conversas: as dores e achaques que teimam em aparecer ultimamente. A mais veemente, uma “jovem” de 50 anos, diz que já não sabe o que fazer com o ombro. As dores, que começaram devagar, foram aumentando. Fez de um tudo: massagem, acupuntura, fisioterapia, antiinflamatório. O que de real é que sua vida se tornou um inferno. Sente dor o tempo todo, não consegue movimentar direito o braço.

Um papo leva a outro e, na mesma hora, todos têm um palpite ou um problema para relatar: é a pressão, o colesterol, o triglicérides... Até que alguém se toca e avisa: “Ei, gente, que negócio caído é esse de ficar falando de doença? Parece um bando de velhos”. Risadaria geral. Mas funcionou. Todos trataram de mudar de assunto, pois ninguém queria ficar sendo o “velhinho” chato da história. Mas, se não fosse pela “censura”, o papo não teria fim, pois todos tinham um causo a contar, uma queixa – nem que fosse da maldita balança, que só faz andar pra direita.

Claro. Porque depois dos 50, um pouco antes ou depois, elas começam a aparecer. Um dia é na perna, outro dia no pescoço, outro dia nas cadeiras. Dores que vêm e vão. Assim, sem cerimônia. No início ninguém dá muita bola. Mas quando elas se instalam, é hora da preocupação. E da constatação que o corpo está dando mostras de que a idade passa.

Só que nem eu nem nenhum dos meus amigos e colegas de geração achávamos que isso aconteceria conosco. Salvo uns poucos “realistas demais”, pensávamos que seríamos sempre jovens, que não envelheceríamos.


Ainda somos, embora não "tão jovens" como antes. Mas, graças à fantástica evolução da ciência, que vem ampliando significativamente a expectativa de vida, não há nenhuma semelhança entre os cinqüentões, sessentões e até mesmo os setentões de hoje e os de algumas décadas atrás.

E contamos, além das novas técnicas e terapêuticas, com um recurso adicional valioso: a informação. Hoje, temos condição de saber o que fazer para evitarmos ou, quando não é mais possível, lidar com os problemas de saúde. E, principalmente, sem abrir mão da qualidade de vida.

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