quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Toques da dança

Vera Dantas

Embaixo do meu escritório tem uma estação de metrô, mas eu prefiro o ônibus para voltar para casa. E sempre procuro sentar do lado esquerdo. O motivo é que em frente ao primeiro ponto da rua São Clemente tem uma famosa academia de dança de salão. A frente do sobrado é totalmente envidraçada no térreo, o que permite a todos que passam ver, por alguns minutos, os pares deslizando pelo salão Aqui abro um parêntesis: é claro que naquela sala do térreo só tem fera; as aulas das turmas que ainda estão nos passos iniciais do tik-tik-tum (samba) e tum-e-tum (bolero) devem ser dadas em outras salas.

Com o pescoço esticado, fico vendo a movimentação da academia, enquanto o ônibus está parado. É um momento rápido, mas que mexe muito comigo. Isso porque desde que comecei a fazer aula de dança de salão, há cerca de dois anos, sou apaixonada pela prática. E agora, que fui forçada a parar por um tempo, fico com inveja, um olho comprido...

Sempre gostei de dançar. Aprendi o dois pra lá-dois pra cá quando era adolescente, nas festinhas familiares. Depois, quando surgiu a onda disco, me esbaldei. Mais tarde, fiz algumas tentativas para voltar à dança de salão, mas logo desistia. Um dia, estava fazendo musculação na academia quando olhei pela janela (ela de novo) e vi que na sala ao lado tinha um grupo fazendo uns movimentos dançantes em frente ao espelho. Era a primeira aula de dança de salão da academia. Corri para lá, entrei na aula e só sai quando a turma acabou, em meados de 2007.

Convidei meu marido que, por um tempo, fez aulas com a turma. Gostamos tanto que decidimos fazer aula particular com o professor, Erik, aos sábados. Mal sabíamos que, mais que uma mera aula de dança, estávamos fazendo uma verdadeira terapia. Foi um período cheio de descobertas, algumas deliciosas, outras um tanto ou quanto incômodas.

Muito da personalidade das pessoas se expressa através da dança. A postura, os passos, o (ou a falta de) equilíbrio, a colocação das mãos, a atenção à marcação e outros detalhes desnudam comportamentos, vícios, medos, insegurança, impetuosidade, desleixo. E por aí vai.

Há quem avança e não deixa espaço para o parceiro; alguns cavalheiros que apertam muito o braço da dama, como se ela fosse fugir; há damas que não se deixam conduzir, que se antecipam ao movimento do cavalheiro; há o ansioso, que não relaxa; há quem não aceite crítica do professor, fica amuado; e há também aquele que quer ser o centro das atenções...

No nosso caso, o início foi muito difícil. De vez em quando rolava um clima meio nervoso, que o Erik, com muito bom humor, conseguia reverter. Uma vez ele deixou escapar que muitas vezes, quando saía para dançar com sua namorada – uma super dançarina, professora-assistente da tal academia bonita e famosa -, eles acabavam brigando. Afinal, eram de academias com estilos diferentes e um sempre achava que o outro estava errado.

Bem, voltando ao casal, aos poucos fomos pegando o jeito da coisa. E, à medida que progredíamos, começamos a relaxar, a brincar com os erros. Curtíamos muito a aula. Mas o melhor mesmo era quando ela acabava. A sala voltava a ser só nossa e o baile começava.

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5 comentários:

Anônimo disse...

Vera,

Adoro também dançar. Fico sempre pensando em frequentar uma academia, mas acabo deixando rolar. Meus dois primeiros casamanetos, e o namoro de hoje, começaram numa dança de salão. Dança que acompanha o casal atual e me acompanhou nos quase 30 anos em que já estive casado.

O seu texto me anima a continuar dançando e, quem sabe, finalmente em uma academia.

ENERGIA PURA disse...

Vera,
O simples ato de escutar uma música que nos reporte a um sentimento já nos faz bem e se for acompanhada por um belo parceiro melhor ainda!
A Dança faz parte de um ritual mágico de auto-conhecimento.
Volte,você é linda dançando e teus olhos brilham muito.
Seja a estrela,do seu palco!
Faça novas descobertas...

Anônimo disse...

Também adoro dançar, só que tenho um belo companheiro que diz saber todos os passos de todas as danças, então ficamos assim, dançando nossa dança com os nossos próprios passos.
Bjus

Anônimo disse...

Ontem, mesmo morta de cansada, assisti pela terceira vez(!?) o filme "Dança comigo". Não minto, embora adore dançar, a motivação principal foi rever Richad Gere.

Pois bem, lá pelas tantas, descoberto pela mulher(a linda Susan Sarandon), que não sabia das suas atividades de aprendiz de dançarino, pergunta-lhe por que sonegou-lhe informação que parecia tão importante para ele. A resposta impessionou-me, não só pela originalidade mas também pelo conteúdo:"Fiquei com vergonha de lhe dizer que queria ser mais feliz, já que tinha tudo para sê-lo"

Incrível como o ser humano sempre tem mais espaço para ser mais feliz e a adança, certamente, é um caminho seguro para mais esse "pouquinho" que, timidamente, almejamos.

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny